16 de fev. de 2018

A Justiça e o Cativeiro Social

A Justiça e o Cativeiro Social
Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2018

A Justiça e o Cativeiro Social

Foto: Reprodução 

Meu Deus! Meu Deus!

Se eu chorar não leve a mal

Pela luz do candeeiro

Liberte o cativeiro social – refrão do samba vice-campeão do Carnaval Carioca

Como explicar a situação de Jéssica Monteiro, de 24 anos, detida no último dia nove, com 90 gramas de maconha, e de seu bebê recém-nascido, ambos presos numa pequena cela do 8º Distrito Policial, SP, senão pelo viés do racismo?

Em plena madrugada de segunda de carnaval, enquanto o Brasil e o mundo assistiam, impactados ou coléricos, à passagem da Paraíso do Tuiuti pela Marquês de Sapucaí, com o enredo "meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?", chegava ao mundo Henrico.

Henrico – que nasceu "cativo" sem haver lei ou ordem para isso – aguardou com sua mãe enquanto seus destinos eram definidos numa "audiência" de custódia. Audiência essa que – por princípio e lógica – deveria contar com a presença física da custodiada (e, diga-se, o fato de Jéssica ser puérpera deveria ter levado o juiz até ela, mas isso parece inimaginável em nosso sistema)… mas na qual só estavam presentes seu advogado, o juiz e a promotora, grávida.

Ninguém foi empático com Jéssica. E nem é isso que se exige. A promotora, gestante, integra uma classe em que – à imagem e semelhança da magistratura – é esmagadoramente branca[1]. Não acredito que engrosse o coro da turba[2] que andou comentando recente postagem da página do Facebook "Efeitos da Prisonização: a Ineficácia da Prisão como Sanção Penal, que trouxe matéria do CNJ sobre a Projeto de Revisão da Lei de Execuções Penais. Mas talvez pense como uma promotora de justiça do RJ de quem ouvi, certa feita, que jamais seria vista sentada no banco dos réus: lugar reservado para "outra classe de pessoas" (acho que ela quis dizer: "bandidos").

Qual será o destino de Jéssica? Difícil prever. Ela engrossa as estatísticas do perfil da mulher presa no Brasil: em sua maioria, por envolvimento com o tráfico e, além disso, por conta das atividades de seus companheiros.

Mas o de Henrico, bem, sobre meninos negros temos dados mais concretos: são vítimas de um genocídio sobre o qual muita gente se cala.

"O Atlas da Violência 2017, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública nesta segunda-feira 5, revela que homens, jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no País. A população negra corresponde a maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios.

Atualmente, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. De acordo com informações do Atlas, os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças, já descontado o efeito da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência."[4]

A lei que estabeleceu o chamado Marco da Primeira Infância (Lei 13.257, de 08/03/2016), dentre outras medidas, alterou o Código de Processo Penal, possibilitando ao juiz substituir a prisão preventiva pela domiciliar, nos casos de gestantes e mulheres ou homens[5] que sejam responsáveis pelos cuidados com filho até 12 anos, em atenção à "especificidade e à relevância dos primeiros anos de vida no desenvolvimento infantil e no desenvolvimento do ser humano".

A audiência de custódia, seria, assim, a oportunidade de ouro para liberar Jéssica (e seu bebê). E ela e Henrico passariam esse período ímpar no lar, eis que prisão não é local adequado para se manter crianças e só se tolera que as frequentem excepcionalmente, e mesmo assim em nome da manutenção dos vínculos com pai ou mãe presos em cumprimento de pena.

Leia também:

Estudo revela o drama das presas grávidas no Brasil: "depois do parto, eles me algemaram"

Há mães proibidas de serem mães?

Parece, em verdade, que o sistema de Justiça não enxergou com bons olhos uma mulher negra presa com 90 gramas de maconha. Gestante, ainda por cima. E talvez por considerá-la um grande perigo à sociedade (desconheço os fundamentos da decisão que negou a liberdade ou a substituição por prisão domiciliar), decidiu mantê-la presa mesmo com as possibilidades de, ao fim do processo, ser inocentada ou, na hipótese de condenação, receber benefício por não ser "traficante habitual", tendo a pena reduzida para menos de 02 anos, substituída por penas alternativas.

É isso: assenhorando-se de seu destino e do de seu rebento, decretou a Justiça que Jéssica e Henrico permanecessem atrás das grades.

Durante 5 anos, de 2007 a 2012, fui responsável, como juíza, pela Unidade Materno-Infantil Madre Teresa de Calcutá, no Complexo Prisional de Gericinó, no Rio de Janeiro. Comparecia mensalmente ali, para audiências em que era definida a guarda dos bebês, que ficavam em alojamento conjunto com as mães, presas, até completarem, no mínimo, 6 (seis) meses de vida.

Passei a flexibilizar (prorrogar) os tais seis meses, que, no início, segundo regras anteriormente estabelecidas, era rígido. E, a certo tempo, propus à equipe que o desligamento dos bebês fosse gradual, para que tivessem a chance de se adaptar à família extensa (normalmente, era quem os recebia).

Conto tudo isso para transmitir o relato da equipe: os bebês, após passarem, por exemplo, um final de semana fora, choravam muito ao retornar para o presídio. E era um presídio com instalações diferenciadas, que pouco lembravam as celas comuns. Mas ainda assim há uma "rotina" no local, que o distingue de uma creche ou enfermaria: guardas armados, revista na porta, algemas para condução das mães para as audiências…

Na época, eu não era a juíza responsável pelos processos das presas nas varas criminais. Mas com muita frequência me perguntava o porquê daquela permanência ali, em tantos casos em que era evidente a possibilidade de cumprimento da pena em outro regime. E, inegavelmente, aquela prisão tinha cor: eram majoritariamente mãe negras com filhos negros.

Penso nos bebês que, nas primeiras horas de vida, lutam pela subsistência, e choram porque têm fome, dor, frio ou calor. E de como uma mulher precisa se desdobrar para lhe dar a atenção e os cuidados de que precisa, num ambiente tranquilo para que possa amamentar e descansar nos momentos possíveis. E penso em Jéssica e Henrico que, além disso tudo, têm que brigar por seu direito de serem livres.

Será que a Justiça não consegue ouvir esse choro, esse clamor?

Como diz o samba da Tuiutí:

"Irmão de olho claro ou da Guiné

Qual será o valor? Pobre artigo de mercado

Senhor eu não tenho a sua fé, e nem tenho a sua cor

Tenho sangue avermelhado

O mesmo que escorre da ferida

Mostra que a vida se lamenta por nós dois

Mas falta em seu peito um coração

Ao me dar escravidão e um prato de feijão com arroz"

Torço que Jéssica e Henrico vão logo para casa. Mas torço mais ainda por uma Justiça com mais coração, que não perpetue os nefastos efeitos da escravidão, que enxergue que a vida se lamenta por todos nós, porque cada prisão representa um fracasso na nossa História, um nó a mais na trança do chicote.

E quem apanha, no fim das contas, é toda a sociedade numa retroalimentação de violências que nunca cessa.


Cristiana Cordeiro é juíza de direito do TJ-RJ desde janeiro de 1998, integrante da Associação Juízes para a Democracia – AJD.


[1] Somente 1% dos juízes são negros.

[2] Lá na postagem, encontram-se pérolas tais como:  "Não compare os escravos negros e os judeus com essa escória assassina e demoníaca. Tanto os escravos quanto os judeus apesar dos maus tratos que receberam, não saíram roubando e matando quando foram libertados". Ou "Pena de morte já. O povo paga pra sustentar vagabundo."

[5] No caso dos homens, se for o único cuidador.




Livre de vírus. www.avast.com.

Carta à Promotora que pediu a prisão da mulher em trabalho de parto

Carta à Promotora que pediu a prisão da mulher em trabalho de parto
Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2018

Carta à Promotora que pediu a prisão da mulher em trabalho de parto

Foto: Reprodução

Eu não conheci V. Exa., quando ainda estava na carreira do Ministério Público, onde fiquei mais de trinta anos; caso tenhamos nos conhecido pessoalmente, perdão pelo lapso.

Li pelos jornais que Vossa Excelência requereu para que fosse mantida presa uma mulher, autuada em flagrante, trazendo consigo, segundo a polícia, noventa gramas de maconha, para fins de tráfico.

Na audiência de custódia, ela se fez representar apenas por seu advogado, uma vez que estava dando a luz em um hospital público da cidade; de lá, em função do pedido feito pelo Ministério Público, representado por Vossa Excelência, e acatado pelo MM Juiz de Direito que presidia o ato, foram a indiciada e seu rebento levados de volta à carceragem. O bebê, bem o sabes, tinha apenas dois dias de vida. As notícias dão conta de que a indiciada era primária e que, além daquele criança, é mãe de uma outra, de três anos de idade.

Leia também: A Justiça e o Cativeiro Social

Escrevo esta carta aberta porque os noticiários deram conta também de um fato significativo: a gravidez de Vossa Excelência. Uma mulher grávida, promotora de justiça, pediu a um juiz de direito que mantivesse presa uma outra mulher, que acabara de parir, levando consigo seu rebento para o cárcere. Admitamos, parece ser enredo de um novela de terror.

Fiquei estarrecido ao ler a notícia. Fiquei pensando como duas mulheres podem ter gestações tão distintas, eis que o fruto de seu ventre, prezada Promotora,  nascerá em uma maternidade de alto padrão e será recepcionado e festejado por parentes e amigos, que lhe darão boas vindas. Sapatinhos, rosas ou azuis, na porta do quarto, avisarão aos visitantes que ali nasceu uma criança linda e saudável, que receberá de todos que a cercam todo amor e conforto.

Nessas maternidades, a segurança é uma obsessão e nada de ruim acontecerá ao rebentos que ali nascerem. É abaixo de zero o risco de alguém estranho, tenha a autoridade que tiver, sair com um dos ocupantes do berçário em seus braços. As enfermeiras são sorridentes e recebem carinhosamente pequenos e merecidos mimos das famílias que acolhem, os médicos são pressurosos e acolhedores.

A suíte onde Vossa Excelência se recuperará do parto tem ar condicionado, TV, rede de wi-fi, a fim de orgulhosas mamães exibam ao mundo o fruto da espera de nove meses. Papais também orgulhosos distribuem charutos e sempre a camisa do time de coração é a primeira foto que mandam para o grupo de amigos. Tudo é felicidade.

No outro lado, o bebê nasceu de uma mulher levada à maternidade algemada, que pariu desacompanhada seu rebento, sem saber e sem ter para onde ir.

Não teve os luxos do nascimento de uma criança de classe média alta e teve que se comportar, haja vista estivesse sob escolta policial, não enfermagem, para atendê-la. Espero que não tenha sido algemada à cama e acabou de ir amamentar seu filho no chão úmido e mofado de uma cadeia pública, onde estava detida, porque não lhe foi reconhecido seu direito à liberdade, seja por Vossa Excelência, seja pelo Juiz de Direito.

Há uma questão, senhora promotora, que supera a questão jurídica.

É assustador imaginar que a senhora não tenha visto naquela criança que nascia um pouco de sua criança que traz em seu ventre.

É assustador imaginar que a senhora, justamente por se encontrar grávida, não tenha visto, com os olhos da alma, o terror de uma mulher amamentar o filho que acabara de nascer, num pedaço de espuma, entre cobertores velhos, num chão batido de uma cela infecta. Não posso crer que esse momento lhe tenha também passado despercebido.

Não posso imaginar que alguém possa trazer consigo tanta ausência de compaixão humana que tenha se permitido participar de uma situação, cuja insensibilidade me traz as piores e mais amargas lembranças da História.

Nas leituras que seu bom médico deve ter sugerido durante sua gestação, certamente, alguma coisa existe – não é autoajuda – no sentido de demonstrar que os primeiros momentos de vida de um ser humano são cruciantes e que poderão ter consequências para o resto de sua vida.

Gente muito melhor do que qualquer jurista concurseiro que lhe tenha dado milhares de dicas, disse isso: Freud, Melanie Klein, John Bowlby. Procure saber deles, que diriam certamente que teria sido menos desumano que a senhora e o juiz que acolheu seu infeliz pedido atirassem na mãe. A senhora, fique certa, contribuiu para uma enorme dor que essa criança haverá de carregar por toda a vida. O terror da mãe transmitiu-se ao filho, não sabia?

Enquanto a senhora há de amamentar teu filho ou tua filha em todas as condições de conforto e segurança, livre do medo, livre do pavor de alguém apartá-la da cria, sem o terror de ver grades de ferro à frente, ela ficou com todos os pavores internalizados. Enquanto a senhora há de desfrutar justa licença-maternidade, em que poderá se dedicar exclusivamente a apresentar o mundo ao doce e bem-vindo recém chegado filho ou filha, ela estará a dizer a seu filho que ele nasceu na cadeia, nasceu preso, nasceu atrás de grades, nasceu encarcerado.

Seria duríssimo, mas inevitável se a falta cometida fosse de tamanha gravidade que não se acenasse ao horizonte uma solução menos gravosa. Mas, haveria de ser do conhecimento de Vossa Excelência, como deve ser do Magistrado, que o STF de há muito pacificou essa questão e essa mulher terá direito a penas restritivas. Isto é, jamais poderia ter permanecido presa, pela singela razão de ter o direito de ser posta em liberdade.

É o que diz a Constituição Federal: ninguém será levado à prisão ou nela mantido, quando a lei admitir a liberdade provisória, com ou sem fiança, no art. 5º, inciso LVI.

A senhora e seu Magistrado agiram com abuso de direito, percebe?

Permito-me dizer que aprendi, dentro do Ministério Público, que não se pode fazer Justiça sem compaixão, sem amor pelo próximo, sem respeito pelas pessoas. Caso se caia nessa cilada, somente se produzirá terror, como esse que a senhora produziu. A Justiça Criminal, cara ex-colega promotora, se mede a partir do direito de liberdade.

Aliás, quem diz maravilhosamente sobre isso é também um ex-integrante do MPSP, Ministro Celso de Mello. Sugiro que a senhora procure ler e estudar um pouco mais, um pouco além desses manuais catastrofistas que colocam os promotores e juízes como agentes de segurança pública, algo que nunca foram e nunca serão. Leia mais humanistas, é evidente a falta que lhe fazem.

Vossa Excelência, quando voltavas para casa, uma lágrima por aquela criança nascida na cadeia, chegou derramar?

Pela mãe abusivamente presa, em algum momento, chegou a ver na barriga dela a mesma barriga que é a sua? Em algum momento dessa tua vida, conseguiu pensar que aquela mulher lhe é igual em tudo? Que o fruto de vosso ventre nascerá como nasceu o dela? Que amamentará seu filho como ela amamentou o dela? Que mecanismo mental foi esse que quebrou uma identificação que haveria de ser imediata?

Onde, enfim, Vossa Excelência deixou a humanidade que deve legar a seu filho?

Com respeito,

Roberto Tardelli, Advogado e Procurador de Justiça Aposentado. 




Livre de vírus. www.avast.com.

26 de jan. de 2018

Para um olhar histórico e crítico do “julgamento” de Lula, por Pedrinho Guareschi

Para um olhar histórico e crítico do "julgamento" de Lula

Pedrinho Guareschi*

Foto: Ezequiel Milicich Seibel - https://goo.gl/bTGVdJ

Rezei e meditei um bocado e peço licença para dizer isso. Não aceitem, mas se isso puder ajudar a pensar, já está ótimo. A melhor análise do fato histórico de ontem, para mim, é o que Samantha Torres me mandou: "No julgamento mais importante da história do país, uma senhora negra serve café para três homens brancos, os quais julgarão um retirante nordestino. Se não entenderem o simbolismo disso, jamais entenderemos esse país".

Gente, o Lula PRECISAVA ser condenado! Seria absoluta falta de lógica o Judiciário não garantir a hegemonia absoluta da Casa Grande. Eu ainda pensava que alguém do Judiciário teria condições de ter a capacidade crítica de ir um pouco além, e ver que o que estava sendo julgado não era o Lula, mas todo um projeto de resgate da desigualdade brasileira de 500 anos. Mas nada! Como muito bem diz Lula, sempre que fala: eles querem garantir esse "complexo de vira-lata" que ainda nos mantém escravos! É preciso incutir neles medo para que não se organizem. Sim, a mulher negra servindo cafezinho é a MATERIALIZAÇÃO da desigualdade que se mantém inalterada e firme: a Casa Grande e a Senzala. Como clarissimamente postou o Frei Betto, quem foi julgado ontem foi o Judiciário! Vocês perceberam que sintonia perfeita? Já não dava para aguentar os "auto-elogios" recíprocos. Impressionante!

Para quem analisa isso criticamente, percebe que eles estão inseguros! Precisam se auto-legitimar! Percebem que lhes falta o pé (a lógica, como provou Mance). Então se trancam em análises minuciosas e ridículas, mil suposições e induções, pois não conseguem mostrar de onde veio o dinheiro! Então SUPÕEM que veio do Lula! Teve até um juiz que começou a falar, numa retórica fenomenal, citando a Constituição, que diz que o Presidente é o primeiro mandatário da nação e... foi seguindo assim, concluindo: então, houve corrupção passiva! Lembrei-me do Papa Francisco comentando que até Jesus Cristo, tinha entre seus doze um "que levava a bolsa..." e que aprontou. Esse juiz, nessa linha de ideias de que quem está à frente é responsável por tudo (vejam, esse é um dos dois grandes crimes de Lula!), não deixaria o Nazareno escapar! Isso não é ridículo? Se houvesse provas de que Lula chamou o fulano e disse: "desvie, roube!", tudo bem. Mas isso não apareceu. Só suposições e convicções.

Basta de práticas assim tão ridículas! E os elogios vão até aquele que produziu essa "sentença anunciada", como mostraram os mais de 100 juristas no livro que analisa essa peça. Nem um comentário sobre isso. Eu fico pensando: Meu Deus, mas será que essa sentença foi tão clara e perfeita que não pode haver um mínimo de divergência? E dê-lhe elogios, num narcisismo recíproco de espantar! Que pensamento único fantástico! Assim, de fato, é impossível uma consciência crítica, muito menos de si mesmo... Mas se não for assim, como vai ficar seu auxílio moradia e outros inúmeros privilégios? Que vergonha, meu irmão…

Mas estou percebendo algo esperançoso: essa Casa Grande está abalada, está fazendo água! Eles estão percebendo. E por isso precisam estancar qualquer tentativa de mudança! No início desse século a senzala tentou levantar a cabeça... foram 4 eleições que incorporaram 40 milhões de excluídos! Então se decidiu que era tempo de estancar essa ameaça! Logo depois da 4ª. eleição, em 2014, a elite decretou: "Não vai mais governar!" E toda a elite, com medo de perder os privilégios, começou a guerra: a câmara, comandada por Cunha, impossibilitou qualquer projeto, escancaradamente! E depois de impedir de governar, a cassaram. Então exultaram! Dilma já estava fora. E estão se esbaldando fazendo mudanças e saqueando o país. Mas surge outro perigo: há alguém com mais de 30% de aceitação. Então precisa acabar com ele, esse retirante que pretende invadir o solar da Casa Grande. Foi então marcado para morrer e sobre ele caíram todos os possíveis pecados do Brasil. Não se fala em mais ninguém. É ele o perigo. E está sendo apedrejado para que não levante mais a cabeça. Cai fora, intruso!

Mas ninguém consegue dominar a todos, nem o tempo todo. Os pobres e oprimidos desse país, e TODOS OS QUE LHES SÃO SOLIDÁRIOS, se dão conta desses crimes escandalosos, mas despudoradamente escondidos, ou mistificados, pela serva fiel e submissa: a Grande Mídia, que faz o impossível para legitimar e justificar tantas injustiças e privilégios.

Não nos iludamos: os milhares de brasileiros que se mobilizaram nesses dias, são um sinal de esperança que a vida tem sentido quando colocada a serviço dos perseguidos e injustiçados. E para terminar: eu gostaria de poder adivinhar o que uma mulher negra, servindo cafezinho a 3 brancos que estão julgando um retirante nordestino, estaria pensando disso tudo.


Publicado no perfil pessoal facebook de 

Pedrinho Guareschi, em 25/01/2018.
______________________________________________________________________________________

* Pedrinho Guarechi é graduado em Filosofia, Teologia e Letras; pós-graduado em Sociologia; mestre e doutor em Psicologia Social; pós-doutor em Ciências Sociais em duas universidades (Wisconsin e Cambridge); pós-doutor em Mídia e Política na Università degli studi 'La Sapienza'; professor na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul); seus estudos, pesquisas e experiências focalizam a Psicologia Social com ênfase em mídia, ideologia, representações sociais, ética, comunicação e educação; conferencista internacional.

Comunicação: democrática? Pra quem?

Comunicação: democrática? Pra quem?


7.6.2011


Débora Nonemacher

informação é uma liberdade fundamental e um direito fundamental de todo ser humano. E é tão fundamental (com o perdão da repetição necessária), que é instrumento para as demais liberdades. É assim que ela é vista no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, que, por sua vez, não é um mero documento protocolar - é compromisso, ou seja, todas as nações que integram a ONU se comprometem a fazer esta liberdade acontecer. Foi para esclarecer a importância disso na nossa realidade social que Pedrinho Guareschi veio conversar com profissionais, estudantes e comunidade em geral, na sexta-feira 20 de maio, na UCS. O especialista foi trazido pelo CEPDH com apoio dos Cursos de Jornalismo e de Sociologia. Ele é um dos maiores pesquisadores do efeito da mídia nas relações sociais (como sinaliza seu currículo, no final deste texto). Esta matéria traz uma síntese da palestra, acrescida de informações complementares, necessárias à contextualização do tema.

Guareschi trouxe reflexões decisivas a partir do desdobramento de cada termo do título da palestra: "Comunicação democrática: o acesso à informação como direito humano". E explicitou como o eixo que perpassa todos esses conceitos é o da 'relação'.
















Foto: Ezequiel Milicich Seibel

"Humano"

Atualmente predominam três visões da realidade social (ou cosmovisões dentro das forças históricas contemporâneas): a individualista-liberal, a comunitário-solidária e a totalitário-massificadora. Cada uma delas tem conceitos de "ser humano" bem diferentes entre si. Na primeira, ser humano é apenas o indivíduo - ele e mais ninguém. Na segunda, ele é visto como uma pessoa em relação com outras. Assim, cada pessoa é resultado de suas relações com outras - não há como alguém existir ou se conceituar isoladamente. É a visão, entre outros, de (Santo) Agostinho e Marx: "o ser humano é resultado de suas relações", "um feixe de relações". Já conforme a terceira corrente, o ser humano é visto apenas como uma peça da máquina, do sistema.

"Direito"

Direito vem do Latim "Jus", que significa "justiça, justo". Ora, ninguém é justo sozinho. Justiça é ética - só pode se dar numa relação. Logo, para se pensar em Direitos Humanos, só se pensando em relações sociais.

"Comunicação"

O direito à comunicação, como deixa clara a Declaração Universal dos Direitos Humanos, abrange a liberdade de opinião e de expressão: inclui a liberdade de buscar, receber e difundir informação. O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, de 1966, novamente no artigo 19, reafirma e detalha este direito e vai além da Declaração: estabelece verdadeiras obrigações aos Estados signatários.

"Democracia"

"É importante detalhar o que é mesmo democracia, porque em nome dela se fazem absurdos, como os Estados Unidos, que recentemente invadiram determinado país e lá mataram um homem, sem avisar a nenhuma autoridade do tal país", advertiu Guareschi, citando também como vergonhoso o discurso de Barack Obama no dia anterior ao da palestra: "parecia um rei do Universo, dizendo o que cada país deve fazer. Ora, isso não é democracia – democracia não se impõe!". Ao contrário disso, como pontuou o palestrante, a democracia de verdade faz acontecer a igualdade (todos são iguais quanto à dignidade fundamental), a diversidade, a participação (todos têm direito a ter voz e vez) e a solidariedade.

Democracia para a cidadania

democracia plena implica cidadania. Na experiência grega dos primórdios da democracia, "não era considerado cidadão o cara que apenas ia à praça assistir às reuniões, e sim, apenas os que se levantavam e falavam", esclarece Guareschi. Ou seja, cidadania é participação efetiva. E participação não só no planejamento e execução, mas também nos resultados. Para isso, o segredo é a participação no planejamento, porque é ali que se define a execução e os resultados, ou seja, quem vai fazer o que, e quem vai ficar com qual parte dos resultados. Quando todos efetivamente participam, sempre se encontra uma solução: "Nas tantas reuniões populares de que já participei, sempre que todos e todas falaram – mas todos e todas mesmo - , não houve nenhuma em que não se encontrou solução", testemunha Guareschi.














Foto: Ezequiel Milicich Seibel

Comunicação é serviço

Segundo o pesquisador, há tarefas urgentes da sociedade e dos profissionais em relação à comunicação:

• Resgatar a comunicação como serviço: comunicação não existe pra fazer dinheiro. É claro que ela tem de ser sustentável, precise de patrocinadores, mas eles não devem ser o eixo: comunicação é serviço público.

• Resgatar a comunicação como direito humano e cidadania: A mídia deve fazer a nova ágora (a praça grega onde os cidadãos dialogavam). Deve trazer os temas nacionais ao diálogo e dar espaço a que todos os envolvidos tenham a mesma oportunidade de se manifestar. Ela não tem de dar respostas, muito menos sua opinião. Sequer deve definir os temas a serem debatidos. O povo é quem tem de definir a pauta da mídia, e não o contrário, como acontece.

• Evoluir da democracia representativa para a democracia participativa: aqui, o duplo papel da comunicação: viabilizar a democracia representativa nos diversos temas da sociedade, e também ela própria se colocar em debate. Os Conselhos e Conferências (Municipais, Estaduais e Nacionais) de Comunicação são urgentes, ainda mais se há tanta força contrária.

• Potencializar as novas tecnologias como mídias de novos sujeitos de comunicação

"Precisamos de bons comunicadores. E um bom comunicador não precisa de muita tecnologia.
Precisa sim é de cuca, compromisso, tesão, solidariedade, empatia...
para pensar naqueles que estão tendo seus direitos violados."

Pedrinho Guareschi

97% da população brasileira não sabe que a mídia eletrônica 
(tv e rádio) não tem dono- é concessão pública! 
E por quê? Porque a mídia não discute a própria mídia

6 minutos – é a duração média de uma notícia na BBC de Londres. 
não pode terminar fechada, muito menos com a opinião do jornalista 

84% de tudo que ogaúcho vê, lê, escuta depende de uma só família 

grandes empresas ilegais: contrariando a própria Constituição, há grandes e centenas de empresas de rádio e tv cujos sócios ou dirigentes são políticos ou parentes de políticos


A difícil batalha pela regulamentação

A comunicação no Brasil é regida por apenas 5 artigos na Constituição (220 a 224), que até hoje não foram regulamentados. As tentativas disso têm sido sistematicamente sufocadas no Legislativo e na própria mídia. E por quê? Porque há grandes e centenas de empresas de rádio e tv cujos sócios ou dirigentes são políticos ou parentes de políticos - ilegalmente, porque isso nem é permitido pela Constituição. São centenas de políticos e centenas de emissoras (saiba mais em http://donosdamidia.com.br/inicial). A discussão sequer é trazida à opinião pública pela mídia. A 1ª Conferência Nacional de Comunicação foi realizada apenas em 2010, a muito custo. Nenhuma das grandes empresas participou, e as poucas que deram repercussão ao evento, o desmoralizaram.

Outro dos tantos itens pendentes dessa pauta, que afeta diretamente a valorização cultural do País e o mercado de trabalho do profissional: por que as emissoras de rádio e tv são dominadas por valores culturais internacionais e produções internacionais, em detrimento das nacionais e, mais ainda, das produções regionais e locais? Por que não cumprem a lei. O artigo 221 determina que as emissoras (rádio e tv) priorizem finalidades "educativas, artísticas, culturais e informativas", e que priorizem e incentivem a "produção cultural, artística e jornalística" da sua região, "conforme percentuais estabelecidos em lei". Estes percentuais ainda não foram estabelecidos – apesar de já haver projeto de lei para isso desde 1991 (PL 256, de 1991, da deputada Jandira Feghali).


"Jornalismo é subversão. Se não for, não é decisivo como jornalismo"

Após sua fala, o palestrante exibiu o documentário "Guerrilha midiática", produzido por Wladymir Ungaretti e oColetivo Catarse assista você também, aqui. O documentário mostra respiros por onde tenta acontecer a comunicação democrática, e a repressão que ela sofre, inclusive aqui no RS, por exemplo.

O vídeo relata o fenômeno recente (anos 2000) no norte do país – o Tecnobrega, que, "mais do que um estilo musical, é um mercado que criou novas formas de produção e distribuição", através da apropriação dos recursos tecnológicos pela periferia, como descreve um dos autores do livro homônimo.

E denuncia a censura articulada pela RBS ao saite Ponto de Vista, cujo editor paga R$ 150 de multa diária se criticar a Rede. "Não é RBS, é PRBS – Partido da RBS", deflagra o jornalista, cuja ação nada criminosa, mas censurada, é explicitar a subjetividade e a manipulação da notícia. O mau exemplo da RBS foi exemplificado também na plenária realizada logo após a exibição do vídeo: "Envio carta ao Jornal Pioneiro e ele não publica. O que fazer?", pergunta um cidadão. Uma das saídas para isso, como sugeriu o Coordenador do Curso de Jornalismo, é aproveitar e potencializar as tecnologias atuais: "Um celular traz hoje recursos pra você produzir e veicular uma notícia quase que instantaneamente". No entanto, esse acesso aos recursos tecnológicos em si não é a solução, como sublinha Ungaretti, no documentário: "Só haverá significativo avanço se isso estiver conectado aos movimentos sociais. Sem movimento social não criaremos mídia alternativa ou seja lá que nome a gente queira dar."


"Os novos revolucionários são imaginadores – eles produzem e manipulam imagens. (...) São fotógrafos, filmadores, gente de vídeo, gente de software, técnicos, programadores, críticos, teóricos e outros que colaboram com os produtores de imagens. Toda esta gente procura injetar valores, politizar as imagens."

Vilém Flusser, citado no
documentário Guerrilha Midiática  



"A câmera na mão de quem corre e apanhaé a arma de defesa. Seu grito ecoa pela rede horas após a repressão.


É a contrainformaçãodo que a mídia corporativa vai mentirsobre o que está acontecendo."


Wladymir Ungaretti,
no documentárioGuerrilha Midiática


"Jornalismo é subversão. Se não for subversão, não é decisivo como jornalismo. Jornalismo é a capacidade de distinguir diferenças onde aparentemente só há semelhanças, e semelhanças onde aparentemente só há diferenças. E isso é uma prática subversiva, sempre." 

Wladymir Ungaretti, no documentário Guerrilha Midiática 

O Movimento pela Democratização 
da Comunicação 

é hoje um trabalho de diversos coletivos pela efetivação da comunicação como direito humano (e portanto, de todos/as) e como instrumento de democratização da sociedade. "Uma sociedade só pode ser chamada de democrática quando as diversas vozes, opiniões e culturas que a compõem têm espaço para se manifestar" (Intervozes).

A batalha é complexa, mas os principais eixos são: 
• Criar um marco regulatório: regulamentação legal e política do setor da comunicação, com participação de todos os setores da sociedade 
• Capacitar os cidadãos para a apreensão crítica dos meios de comunicação (compreensão da linguagem e dos artifícios empregados) 
• Criar instrumentos de controle social/público sobre os meios de comunicação de massa (processo não censório) 
• Estimular a produção e difusão nacional e regional, e de conteúdos plurais e diversos 
• Fortalecer a comunicação popular, comunitária, independente, alternativa e livre


Saiba mais:

Guerrilha Midiática - documentário
"Os jornalistas têm uma importância crucial na sociedade. Da comunicação, hoje, depende a democracia. Mas se o jornalista apenas pensar: 'vou ser um bom empregado', ele nunca vai fazer o seu papel."
Alguns livros do Guareschi:
- Mídia e democracia
- Comunicação e controle social
- Comunicação e poder: a presença e o papel dos meios de comunicação de massa estrangeiros na América Latina
- Mídia, educação e cidadania
- Sociologia crítica: alternativas de mudança
- Sociologia da prática social
- Psicologia social crítica como prática de libertação
- A máquina capitalista
Observatório da Imprensa – Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Donos da Mídia: o mapa da comunicação social no Brasil
FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da música. Livro do advogado Ronaldo Lemos e da jornalista Oona Castro. Fruto do projeto Modelos de Negócios Abertos – América Latina, coordenado pela Fundação Getúlio Vargas (Centro de Tecnologia e Sociedade) em parceria com o Instituto Overmundo, traz respostas à crise da indústria cultural que respeitam a diversidade e as culturas locais. Coleção Tramas Urbanas, Aeroplano Editora. Patrocinado pela Petrobrás. http://www.cepdh.blogspot.com/, e sobre o Movimento Nacional em http://www.mndh.org.br/.Download livre aqui.

...

O palestrante: Pedrinho Guareschi é Graduado em Filosofia, Teologia e Letras, Pós-Graduado em Sociologia, Mestre e Doutor em Psicologia Social. Pós-Doutor em Ciências Sociais em duas universidades (Wisconsin e Cambridge). Professor convidado da UFRGS e da UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre) e conferencista internacional. Seus estudos, pesquisas e experiência centram-se na Psicologia Social, com ênfase em mídia, ideologia, representações sociais, ética, comunicação e educação.

A palestra foi promovida pelo CEPDH. Integraram a mesa o Pe. Gilnei Fronza e o Pe. Roque Grazziotin (este, também presidente da FUCS), o professor Winkler, do Curso de Licenciatura em Sociologia, e o professor Álvaro, Coordenador do Curso de Jornalismo, parceiros promotores do evento, além da deputada Marisa Formolo.

O ciclo. A palestra é a segunda de uma série que está sendo promovida pelo Centro ao longo de 2011, abordando vários temas referentes ao Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3). A primeira foi "Direitos Ambientais como Direitos Humanos: o agronegócio e suas consequências para os alimentos e o meio-ambiente", em maio.

O CEPDH tem abrangência regional, é sediado em Caxias do Sul e tem 27 anos. É filiado ao filiado ao MNDH – Movimento Nacional dos Direitos Humanos. O MNDH fundamenta sua ação na Luta pela vida, contra a violência. O CEPDH foi criado a partir da análise do Mundo do Trabalho e suas conseqüências para a realidade regional, para dar suporte à defesa e formação dos trabalhadores, principalmente nas áreas do Direito, Saúde e Assistência Social. Mais sobre o Centro em http://www.cepdh.blogspot.com/ e sobre o Movimento Nacional em http://www.mndh.org.br/

20 de dez. de 2017

Natal

Jesus desafiou a ordem política, econômica e religiosa da época. Foi preso, torturado e assassinado como herege, desviado, imoral, escandaloso e desviado. Esse é o Jesus que tantas vezes parte da Igreja tenta esconder. 
Confira a nova coluna do pastor Henrique Vieira.

Vídeo: 
https://www.facebook.com/MidiaNINJA/videos/1040293032795508/
19 de dezembro de 2017



O natal vítima da ideologia

Jacques Távora Alfonsín
18 de dezembro de 2017

Como toda a armadilha, as da ideologia também disfarçam o grampo de captura das suas presas. Para o significado do natal não atrapalhar outros interesses, ela achou um meio de pressionar desejos sobre coisas, presentes, bolas coloridas, brilhos de papel, árvores artificiais cheias de enfeites, toda uma aparência alheia e distante do Menino Jesus, a Pessoa que deu nome ao próprio natal.

Substituí-lo pelo papai Noel, decorar casas e show rooms, enviar apps e cartões de boas festas, comprar nozes, avelãs e vinhos caros para uma ceia de meia-noite, virou obrigação.

A pobreza, a falta de teto e a negação de hospedagem aos Pais da Criança, levando a Sua Mãe quase parindo para um abrigo improvisado, como acontece ainda hoje com muita mãe favelada, isso tem sido habilmente posto de lado da imaginação coletiva. Assim, o verdadeiro sentido desse Nascimento não seja atualizado e consiga perturbar toda uma cultura ideológica criada por um sistema de propaganda e divulgação com poder suficiente para neutralizar a lembrança de quanto se encontra em causa nesse acontecimento histórico.

O pensamento, o sentimento e a ação da Criança, quando chegou a sua fase adulta, curando doentes, condenando poderes privados e públicos corruptos, convivendo com gente de má fama, conforme os valores predominantes na hipocrisia das classes econômica e politicamente dominantes, colocando-se gratuitamente a serviço de gente pobre e miserável, desmitificando falsas posturas religiosas, semeou na história posterior um outro modelo de poder, de vida, de costumes, muito diferentes e infinitamente superiores aos, então, em voga.

Quem despreza, oprime, reprime, escraviza, odeia e mata gente como aquela que vivia em companhia desse Menino, achou uma saída: assassinou-o, sem possibilidade de defesa, numa cruz. Como ainda agora acontece, quando se recorda a sucessão macabra de mártires que seguiram o Seu Exemplo, militantes da causa de libertação dos povos, como Dom Oscar Romero, das/os pobres da terra e dos direitos humanos, como Dorothy Stang, Margarida Alves, Paulo Fonteles, Eugenio Lyra, Rubens Paiva, Ico Lisboa, ateus, atéias, gente presa, torturada, jogada de avião ao alto mar, corpos desaparecidos, as Comissões de anistia e de verdade tentando levar a seus familiares alguma pista de onde possam ser encontrados.

Qual a relação desses testemunhos históricos com o natal? Entre milhares de outras, elas são pessoas que, como o Menino Jesus, independentemente de suas crenças, desejos, sonhos, também não nasceram em vão. São vidas de doação e desapego a serviço de irmãs e irmãos necessitadas/os, generosas e com coragem perseverante até a disposição de morrerem em defesa delas e deles.

Exatamente o contrário da ideologia hoje dominante no natal, muito mais preocupada com o incremento de uma civilização cultural e ideologicamente obcecada pelo ter, o acumular, o egoísmo, a aparência vaidosa do dinheiro, em prejuízo do ser, da consciência da necessidade alheia, inspiradora do Menino. Mais do que ninguém, Ele conhece a diferença entre o dar e o doar-se.

Marx dizia, contra a pseudo ciência e alienação da sua época que era necessário transformar a crítica do "céu" em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito e a crítica da teologia em crítica da política. Se vivesse agora, diante do que estão planejando e fazendo o Papa Francisco e a chamada teologia da libertação, ele não repetiria essa crítica. O preséio está voltando a ser o que é, um abrigo precário e pobre. Está iluminado por outras luzes estrelares, reais e não fictícias, invertendo a inversão da ideologia, parecendo um sinal paradoxal desse fato, o desespero com que essa tenta se defender.

O natal desse ano pode recuperar o seu significado real, o Menino já se levantou e está reproduzindo sua mensagem na voz e na ação de pessoas suas seguidoras, algumas que nem O conhecem direito. Cumpre inverter a inversão ideológica falsificadora desse acontecimento, negando as negações que ela impõe ao modo de uma dialética de pensamento, sentimento e ação ancoradas no significado concreto do nascimento do Menino Jesus. Ateus e crentes talvez possam concordar num ponto chave dessa significação: nascido na mais absoluta carência, sem ter conseguido um lugar onde sequer conseguisse "reclinar a cabeça", a Criança revolucionou as gentes e o mundo. Muito sintomaticamente, se alguma vez usou uma arma para isso, foi um simples relho para expulsar quem fazia da Sua Casa um balcão de negócios…

Na internet circula um texto de Carlos Drumond de Andrade muito oportuno sobre isso. Tomando o natal como tema, ele ironiza o amor pelo dinheiro e a alienação dos poderes instituídos. Ofereço a você, leitor e leitora, que me honraram em 2017, com leitura e crítica sobre o que escrevo. Pelos dois últimos parágrafos da mensagem desse grande poeta, faço minhas as suas palavras, desejando um muito feliz natal e um 2018 bem melhor para vocês. Até breve. Espero estar de volta por aqui no dia 22 de janeiro:

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz. O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível. A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã. O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive. E será Natal para sempre.


Texto de Jacques Távora Alfonsin



Livre de vírus. www.avast.com.

Em cada diferença, a igualdade

Programa - CEPDH

P rograma Razões da Fé: Centro de Estudos, Pesquisa e Direitos Humanos: lugar onde é aplicada a doutrina social da igreja Programa de 23/12/...