12 de dez. de 2017

A Declaração universal de direitos das pessoas humanas não se universalizou

A Declaração universal de direitos das pessoas humanas não se universalizou



12 Dezembro 2017

 

    "Os direitos humanos fundamentais sociais, como a sua própria denominação revela, dependem de um tempo e um lugar de encontro das pessoas entre si e dos Poderes Públicos com todas elas. Essa obviedade está sendo deturpada em todo o mundo, no Brasil inclusive, com uma força poderosa de propaganda daquele sistema, daquele fio invisível, como a chave mestra da nossa salvação, a fórmula mágica de superação definitiva das nossas frequentes crises econômico-políticas".

    O comentário é de Jacques Távora Alfonsin, procurador aposentado do estado do Rio Grande do Sul e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos.

    Eis o artigo. 

    Dia 10 deste dezembro, a Declaração Universal de direitos das pessoas humanas completou 69 anos. De boas intenções ela estava cheia, e ainda está, pois continua em vigor. Ela visava convencer o mundo de que o armistício capaz de livrá-lo da guerra, seria capaz também de garantir-lhe a paz, o bem-estar de todo o ser humano contra a injustiça, o desrespeito à dignidade humana, contra todo o mal. Aprendera com a tragédia de se resolver problemas com o uso das armas. Sentimentos fraternos de reparação recíproca por um mal sofrido, por reconciliação quando alguém arrependido de um mal praticado procura quem ofendeu, não havia, como não há ainda hoje, razão alguma para isso merecer censura. Países, anteriormente inimigos, selavam pela Declaração, o pacto de não comprometer a paz.

    Não foi o que aconteceu depois. Durante essas quase sete décadas, nações com maior poder militar, signatárias daquele importante documento, de validade pretensamente universal, criaram a suspeita, por suas próprias iniciativas, sobre se houve sinceridade na assinatura dele. Guerras se sucederam, ditaduras foram impostas, abusos de poder refletidos em tortura, perseguições racistas, ideológicas, religiosas, preconceitos arraigados entre classes sociais estabelecidas segundo sua renda ou posição, criando privilégios, diferenças geradoras de desigualdades, liberdades cerceadas, garantias prometidas a direitos sociais e não cumpridas, provaram a ineficácia de grande parte da Declaração. Uma indiferença quase generalizada com a fome, a doença, o desemprego, o desabrigo de milhões de pessoas em todo o mundo, deixam hoje o bolo da aniversariante sem a luz e o calor das 69 velas, sem a cantoria alegre dos parabéns.

    A ONU percebeu logo a insuficiência da Declaração para a grandeza dos objetivos que a pretensão de universalizar direitos comporta, e a sua incapacidade de obrigar Estados a vencer as distâncias que separam as previsões legais dos seus esperados efeitos. Vem tentanto suprir, embora com ralo sucesso, o poder que ela não teve e ainda está longe de ter. Assim, chama com frequência os países de todo o mundo para debater problemas velhos e novos, inerentes ao sofrimento provocado pelo desprezo do ser humano, pela injustiça, pela violência, pela corrupção das autoridades, por um sistema econômico globalizado e financeirizado, com poder superior ao dos Estados. É o chamado "sistema" ao qual o Papa Francisco chamou certeiramente, de fio invisível, uma forma disfarçada de opressão e repressão imunes a qualquer responsabilização.

    O atual (des)governo do Brasil é cúmplice desse sistema, por todas as medidas que tem imposto sob a fachada de "reformas". De públicos os nossos atuais Poderes institucionais têm muito pouco porque eles fingem não saber que "o nada de uma privação", especialmente se essa for de direitos, os mais diretamente vinculados à existência das pessoas, como a alimentação e a moradia, por exemplo, "tem uma potência superior a cada vontade individual", no preciso diagnóstico de Paul Ricouer em "O mal", um livro traduzido e publicado aqui no Brasil em 1988, justamente quando a nossa Constituição entrou em vigor.

    Serve para esse (des)governo a advertência do autor sobre o volume de sofrimento imposto ao povo pelo que ele suporta do quanto está sendo privado, do quanto a vontade individual de cada um/a das/os suas/seus integrantes está sendo reduzida à mais completa impotência: "quanto mais o sistema prospera, mais as vítimas são marginalizadas. O êxito do sistema faz o seu fracasso. O sofrimento, através da voz da lamentação, é o que se exclui do sistema."

    A voz da lamentação, porém, já começou a mudar seu tom. É a desproporção agora constatada entre o previsto na Declaração dos direitos das pessoas humanas, o que foi repetido pela nossa Constituição, e o realizado, que está incomodando crescentemente a sociedade. Se a Declaração serviu para inspirar em grande parte, durante o regime militar, as organizações nacionais e internacionais de defesa dos direitos humanos, agora isso começa a tomar corpo no meio do povo novamente.

    A Frente Brasil Popular e a Frente do povo sem medo, entre outras organizações, estão recebendo apoio massivo e, do ponto de vista estritamente jurídico, o apoio técnico de frentes de juristas se organizando contra o golpe e em defesa do Estado democrático de direito.

    Os direitos humanos fundamentais sociais, como a sua própria denominação revela, dependem de um tempo e um lugar de encontro das pessoas entre si e dos Poderes Públicos com todas elas. Essa obviedade está sendo deturpada em todo o mundo, no Brasil inclusive, com uma força poderosa de propaganda daquele sistema, daquele fio invisível, como a chave mestra da nossa salvação, a fórmula mágica de superação definitiva das nossas frequentes crises econômico-políticas. Pelo que se começa a observar, porém, já está faltando o ar para essa ficção continuar se impondo.

    A gente já sabe que vive num mundo de abundância muitíssimo superior as necessidades essenciais de todo o mundo. O que sobra para a minoria representativa desse sistema, no entanto, ao ponto de ele nem mais saber o que fazer com ela, é o que está faltando ao restante da humanidade, pelo domínio que ele exerce sobre a terra, a água, o ar indispensáveis à vida dos povos por ele excluídos. O aniversário da Declaração universal de direitos das pessoas humanas, assim, em vez de ser celebrado como festa, deve ser denunciado como farsa enquanto ela não vencer, de fato e de direito, essa exclusão.


    http://www.ihu.unisinos.br/574535-a-declaracao-universal-de-direitos-das-pessoas-humanas-nao-se-universalizou



    10 de dez. de 2017

    Direitos Humanos: uma luta permanente

    Direitos Humanos: uma luta permanente

    Paulo César Carbonari


    10 de dezembro é o dia mundial dos direitos humanos. A data marca a proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) pelas Nações Unidas (ONU), em 1948. A DUDH é um marco na luta pelos direitos humanos em todo o mundo. Esta luta, no entanto, não se restringe a esta data; é uma luta permanente de todos/as que acreditam que a dignidade humana está acima de qualquer preço, aliás, nunca pode ter preço, mas só valor, e não está disponível em qualquer hipótese.

    Mas, será que estamos convencidos/as de que direitos humanos se constituem em valor universal? O que significa defender direitos humanos? Quais são os principais desafios para realizar os direitos humanos hoje? Refletir sobre estas questões é o chamamento deste artigo. Mesmo que não possa comportar todas as dimensões que as questões suscitam, apresenta alguns aspectos que podem ajudar a despertar consciências e a mobilizar práticas.

    O conteúdo dos direitos humanos, a dignidade humana, constitui valor universal não só porque proclamada na Declaração, mas porque é o que constitui a humanidade em geral e que se faz realidade em cada pessoa. Ela simplesmente só pode ser valorizada, sem relativizações. Isto, no entanto, não significa que não se possa e nem se deva tomar em conta as condições concretas nas quais se apresenta. Pelo contrário, é só tomando em conta as singularidades e as particularidades que constituem historicamente os seres humanos que se pode valorizar concretamente o que há de comum, o que é universal. Por isso, posturas que advogam, por exemplo, que direitos humanos são apenas para "humanos direitos" não comungam da universalidade, visto que, de princípio, tomam as diferenças como motivo para desigualdades, resultando na exclusão de certos grupos e indivíduos humanos do campo da proteção dos direitos humanos. Por serem discriminatórias, estas posturas resultam em injustiça e em interdição de pessoas como sujeitos em dignidade e direitos. Assim que, se ainda nem todos/as estão convencidos/as do valor universal dos direitos humanos, põe-se uma tarefa pedagógica e política a ser implementada para produzir o debate público no qual as posições sejam explicitadas, para que argumentativamente sejam enfrentadas e, quiçá, resultem em convencimento. Por isso é que no preâmbulo da Declaração da ONU há uma convocação para que uma das principais tarefas seja exatamente a da educação em e para os direitos humanos.

    Defender direitos humanos significa assumir uma postura pessoal e pública que toma os seres humanos simplesmente como valor. Significa agir de forma a promover todos os direitos humanos de todas as pessoas. Significa ser capaz de identificar os mais fracos e agir no sentido de protegê-los de todo tipo de ameaça, não de forma assistencialista, mas acreditando e investindo em sua condição de sujeitos de direitos. Significa também, em situações de conflito e violação, decidir, se posicionar, se pronunciar e agir a favor da vítima, o que significa cobrar a reparação das violações. Lutar pelos direitos humanos não é fazer revanchismo, mas é fazer valer a justiça. Agir em favor dos direitos humanos é fazer uma leitura consistente e profunda da realidade e associar-se aos sujeitos que lutam para que seus próprios direitos sejam respeitados, o que é sempre uma luta para que todos os direitos de todas as pessoas também sejam reconhecidos e respeitados. Assim, é em cada realidade concreta que se faz a luta por direitos humanos, mas sempre agindo de forma coerente com a concepção de que direitos humanos são um valor universal.

    Nos dias de hoje emergem alguns desafios fundamentais para realizar os direitos humanos, muitos recorrentes. Como esforço analítico, referimos alguns: a) assumir os direitos humanos como valor universal com respeito à diversidade, fazendo frente aos relativismos e a todo tipo de intolerância e de preconceito; b) compatibilizar a promoção dos direitos humanos com a proteção e a preservação do ambiente natural; c) enfrentar as novas formas de trabalho que de flexíveis nada tem; d) garantir acesso e qualidade aos direitos sociais, particularmente a previdência, a saúde e a educação; e) mediar conflitos e fazer frente às diversas formas de violência; f) viabilizar sociedades justas, fazendo frente às graves desigualdades, à pobreza e à miséria; g) reposicionar projetos de desenvolvimento que violam direitos humanos e desrespeitam o ambiente natural; h) reverter a lógica consumista que tende a valorizar as coisas e a pôr preço nas pessoas; i) afirmar a memória, a verdade e a justiça como direitos fundamentais a fim de promover o "nunca mais" do totalitarismo, das ditaduras, da tortura, do tratamento cruel, desumano e degradante, do trabalho escravo e infantil, do extermínio de povos originários; enfim, j) educar a sociedade para que compreenda os direitos humanos como valor universal que se concretiza na singularidade de cada pessoa.

    A celebração do dia dos direitos humanos, além de momento para afirmar posturas e valores, é também momento para assumir compromissos e responsabilidades com a humanidade que está em cada um de nós e que se revela a nós pela relação com os outros. Superar todos os impedimentos e todas as interdições que os têm inviabilizado é a tarefa que se põe como chamado. Mais uma vez é momento de dizer: queremos todos os direitos humanos, para todas as pessoas, já!

    Texto de Paulo César Carbonari 





    Livre de vírus. www.avast.com.

    31 de out. de 2017

    24 de out. de 2017

    O Brasil que queremos | Emir Sader | VÍDEOS

    O BRASIL QUE QUEREMOS
    reconstruir um projeto de país para todos/as
    EMIR SADER
    ~ 19/10, 19h40, auditório do bloco H da UCS

    O Brasil que queremos | Emir Sader | Parte 1: https://www.youtube.com/watch?v=y0sOyaf0BBI

    O Brasil que queremos | Emir Sader | Parte 2: https://www.youtube.com/watch?v=NybiphxkIhE

    ~ Na última década, o Estado brasileiro começou a se abrir para políticas rumo a um país mais humano, solidário, democrático. Mas esse mesmo Estado ainda se mostra muito vulnerável à ditadura das elites. Da mesma forma, a economia do país ainda sofre com a hegemonia do capital especulativo, e o sistema tributário continua sendo injusto, recaindo sobre os assalariados e não sobre os ricos e os especuladores. Qual é então a revisão necessária – nas perspectivas, ações e prioridades dos setores e movimentos sociais? Essa é a reflexão sobre a qual se debruçaram diversos/as pensadores/as, líderes e especialistas no último ano, gerando propostas para setores estruturais do país, reunidas num livro recém-publicado: "O Brasil que queremos".

    ~ O livro "O Brasil que queremos" foi publicado pelo Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da UERJ. Reúne economistas, físicos, filósofos e diversos/as especialistas, tematizando: política industrial, agrária, externa, ambiental, energética, cultural; crescimento, trabalho, emprego, renda e paz; reforma tributária, reforma política; novos desafios na educação e saúde públicas; democracia de gênero, democracia nas comunicações; sistema representativo, movimentos sociais; combate à pobreza, projetos sociais.

    ~ Informamos que ainda temos exemplares do livro "O Brasil que queremos" (organizado por Emir Sader e publicado pela Editora LPP-UERJ), para aquisição, no valor de R$ 40. Interessados/as favor contatar aqui no facebook (Associação de Microcrédito Popular e Solidário - Acredisol) ou por email (acredisol@gmail.com).

    ~ Emir Sader tem graduação em filosofia, com mestrado em filosofia e doutorado em ciência política. É professor da UERJ e coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Foi um dos idealizadores e organizadores do Fórum Social Mundial e é um dos cientistas sociais mais influentes da América Latina. Foi Secretário-Executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO). É autor, co-autor e organizador de dezenas de livros, de editoras nacionais e estrangeiras, e participa no conselho editorial de diversas publicações.

    ~ Realização:
    Graduação em Serviço Social - UCS
    SINDISERV - Sindicato dos Servidores Municipais de Caxias do Sul 
    Sindicato dos Bancários de Caxias do Sul e Região
    DVN Comunicação, Planejamento e Conteúdo (Débora Nonemacher)

    13 de out. de 2017

    O BRASIL QUE QUEREMOS



    Na última década, o Estado brasileiro começou a se abrir para políticas rumo a um país mais humano, solidário, democrático. Mas esse mesmo Estado ainda se mostra muito vulnerável à ditadura das elites. Da mesma forma, a economia do país ainda sofre com a hegemonia do capital especulativo, e o sistema tributário continua sendo injusto, recaindo sobre os assalariados e não sobre os ricos e os especuladores. 

    Qual é então a revisão necessária – nas perspectivas, ações e prioridades dos setores e movimentos sociais? Essa é a reflexão sobre a qual se debruçaram diversos/as pensadores/as, líderes e especialistas no último ano, gerando propostas para setores estruturais do país, reunidas num livro recém-publicado: "O Brasil que queremos". É sobre essas propostas que Emir Sader vem a Caxias falar. 

    ~ O livro "O Brasil que queremos" foi publicado pelo Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da UERJ. Reúne economistas, físicos, filósofos e diversos/as especialistas, tematizando:
    . política industrial, agrária, externa, ambiental, energética, cultural
    . crescimento, trabalho, emprego, renda e paz
    . reforma tributária, reforma política
    . novos desafios na educação e saúde públicas
    . democracia de gênero, democracia nas comunicações
    . sistema representativo, movimentos sociais
    . combate à pobreza, projetos sociais

    ~ Emir Sader foi um dos idealizadores e organizadores do Fórum Social Mundial e é um dos cientistas sociais mais influentes da América Latina. É autor, co-autor e organizador de dezenas de livros, de editoras nacionais e estrangeiras. Já palestrou em Caxias em 2003, 2009, 2010 e 2012. Neste último, no Congresso Internacional de Direitos Humanos, falando sobre Conjuntura Internacional.

    ~ Evento dirigido a estudantes, professores/as e profissionais das Ciências Humanas, atuadores/as de movimentos sociais, entidades comunitárias e a todos/as profissionais e cidadãs/ãos entusiastas de "um outro mundo possível". 

    ~ Inscrições: https://goo.gl/z1CpVz

    ~ Realização:
    Associação de Microcrédito Popular e Solidário - Acredisol 
    Curso de Licenciatura em Sociologia - UCS
    Sinpro Caxias do Sul

    ~ Apoio cultural: 
    Centro Acadêmico Sociologia Florestan Fernandes- Ucs - CASFF
    Centro de Estudos, Pesquisa e Direitos Humanos - CEPDH
    Graduação em Serviço Social - UCS
    SINDISERV - Sindicato dos Servidores Municipais de Caxias do Sul 
    Sindicato dos Bancários de Caxias do Sul e Região
    DVN Comunicação, Planejamento e Conteúdo (Débora Nonemacher)





    30 de ago. de 2017

    PF investiga defensores de direitos humanos que denunciaram abuso de autoridade policial

    PF investiga defensores de direitos humanos que denunciaram abuso de autoridade policial

    Posto da Polícia Federal, em Passo Fundo, onde cinco dos dez defensores de direitos humanos foram ouvidos nesta terça | Foto: Bibiana Canofre/Sul21

    Fernanda Canofre

    A megaoperação da Polícia Federal e da Brigada Militar, realizada no final de novembro do ano passado, para prender indígenas kaingang acusados de participar de esquemas de extorsão no município de Sananduva – a 367 km de Porto Alegre – ganhou mais um capítulo nesta terça-feira (29). A PF de Passo Fundo intimou para depoimento cinco dos dez ativistas de direitos humanos que são investigados por denunciação caluniosa e reportar falso crime, depois de terem pedido investigação da conduta das forças policiais durante a operação que deslocou 150 homens, cães farejadores e um helicóptero. Os cinco usaram o direito de permanecerem calados.

    A origem do processo foi uma notícia de fato apresentada pela Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e outros ativistas ao Ministério Público Federal. Diferente de denúncia, neste caso, uma suspeita é levada ao conhecimento das autoridades pedindo que seja aberta investigação. Cerca de 20 dias após o pedido, o delegado chefe da Polícia Federal de Passo Fundo, Mauro Vinicius Soares de Moraes, respondeu ao MPF, requisitando investigação em cima de dez pessoas – cinco defensores de direitos humanos que assinaram nominalmente a notícia de fato e cinco nomes retirados do site da CDHPF, que apareciam como membros da coordenação.

    Além dos cinco ouvidos em Passo Fundo, outras quatro pessoas foram intimadas para prestar depoimento no início de setembro. O inquérito comandado pelo delegado Eduardo Brun não aborda o processo contra os kaingang, que ainda mantém três dos 11 indígenas presos, no Presídio de Lagoa Vermelha. Ele investiga apenas se houve abuso por parte da Polícia Federal e Brigada Militar durante a operação no Passo Grande do Rio Forquilha ou se os defensores dos direitos humanos teriam levantando calúnia. O delegado diz que a investigação corre em uma  "bi-dimensão", já que a confirmação de uma acusação excluiria a outra.

    "Preciso saber se houve abuso policial ou se houve uma mentira de alguém que diz que alguém abusou. Preciso ouvir essas pessoas e preciso que elas me digam de onde partiu [a informação], porque como Comissão de Direitos Humanos, eles recebem informações", afirma Brun. Antes de ouvir os intimados, ele esclareceu que a opção pelo silêncio poderia resultar em mandados de busca e apreensão em suas casas. "Todas essas pessoas que forem chamadas precisam contribuir com a verdade, doa a quem doer", afirmou depois ao Sul21.

    O processo traz perfis de cada um, citando postagens e ações nas redes sociais e puxando registros policiais que vão desde acidentes de trânsito ocorridos em 1996, registros de boletins de ocorrência por roubos ou furtos de que os investigados foram vítimas a todo tipo de ações judiciais que envolvem os mesmos. Sobre os policiais investigados, não há menção de nomes ou número de pessoas da BM ou da PF que estariam no processo. Brun diz que optou por deixar a informação oculta por uma "questão de inteligência".

    O delegado discorda dos termos "investigados", "testemunhas" ou "denunciados" para definir as dez pessoas citadas no inquérito. "Essa palavra 'investigado' é incorreta. Essas pessoas, com a condição de compor uma Comissão de Direitos Humanos, recebem e ouvem fatos, dentro do atuar legítimo de direitos humanos. Alguém falou para elas, alguma coisa, que elas podem ter veiculado, em vias de representação. Nós precisávamos – embora hoje elas optaram por não contribuir – que elas nos levassem a essas pessoas, para poder ouvir as fontes. Alguém viu, ouviu ou interpretou cada um desses fatos. Essas fontes eu preciso saber quem são".

    Pedido de investigação é praxe, segundo CDHPF

    Kaingangs protestam contra indicações de cargos de direção na Funai | Foto: Divulgação

    Um dos nomes citados no inquérito, Paulo César Carbonari, coordenador geral da Comissão de DH de Passo Fundo, que ocupou o cargo de presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos até o último dia 18, explica que a notícia de fato teve por base reportagens veiculadas pela Rádio Uirapuru, no dia 23 de novembro, e o fato da Comissão ter acompanhado a situação dos indígenas presos.

    "Tinha advogados acompanhando o caso, então não tem nenhum estranhamento e nada de desconhecido para se informar. O que tem é o que era de conhecimento público. O que não era de conhecimento público é de conhecimento dos advogados e tem sigilo ético", diz.

    Leandro Scalabrin, outro membro da Comissão que aparece no inquérito, afirma que a notificação às autoridades sobre supostas irregularidades são uma prática comum desde que a CDHPF foi criada, em 1984. "Já fizemos isso em várias situações, de todos os tipos de violações que entendíamos como de direitos humanos. Quando surgiu o serial killer, Adriano da Silva, em Passo Fundo, em 2002, nós também apresentamos o pedido para abertura de procedimento investigatório".

    Os representantes da Comissão, no entanto, dizem nunca terem enfrentado uma situação similar a esta. "Sempre tivemos nas autoridades públicas parceiros para fazer esse tipo de investigação. Ficamos surpresos com essa reação. Claro, tem divergências, às vezes a autoridade não concorda com o que a gente está sugerindo, mas daí a nos arrolar no inquérito, como nessa situação, é a primeira vez", diz Carbonari.

    Na última semana, diversos movimentos e organizações nacionais publicaram nota em solidariedade aos dez defensores citados pelo inquérito, entre eles o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH).

    Um dos advogados dos defensores, que participou da audiência na Polícia Federal, Jacques Távora Alfonsin avaliou a oitiva como "positiva". Ele não quis comentar o porquê da opção pelo silêncio, para não aprofundar na linha que será adotada pela defesa. Alfonsin, porém, avaliou o fato do inquérito trazer perfis dos defensores, mas não mencionar policiais. "Isso mostra que nem o delegado responsável está convencido dos fatos sobre os quais eles estão sendo denunciados. Olhando o processo, temos condições de dizer que essa não seria a melhor forma de tomar informações. Tanto que abriu a chance de chamar novamente as pessoas como testemunha".

    Comando da operação nega abuso de autoridade

    Brun não soube dizer quantas pessoas já foram ouvidas ou quantas ainda serão intimadas. O delegado afirmou apenas que os comandos da Brigada Militar e da Polícia Federal já prestaram depoimento, embora não tenha precisado quantas pessoas isso envolveria. O delegado Mário Luiz Vieira, que comandou a operação pela Polícia Federal, está entre eles.

    O delegado Mário Luiz Vieira | Foto: Bibiana Canofre/Sul21

    Para Vieira, que trabalha com investigações envolvendo questões indígenas na região norte do estado há quatro anos e meio, os grupos em defesa dos direitos humanos estão "extrapolando" em suas denúncias. "Eu diria que eles estão muito mal-informados. Eles não conhecem e vão pelo 'ouvi dizer'. Extremamente mal-informados".

    O delegado afirmou reiteradas vezes que não houve qualquer tipo de abuso de autoridade durante a operação, mas esclareceu que ela foi "muito diferente das outras". "Os índios kaingang demandam um cuidado muito delicado, então, o número de pessoas usado ali foi justamente para não incitar a reação. Porque a reação, principalmente das mulheres kaingang, é em cadeia. Uma reage, dezenas de outras reagem junto. Então, foi feita uma imobilização temporária", justifica Vieira, complementando que a reação "geralmente, é violenta". Segundo ele, no dia, houve um princípio de reação que explicaria o porquê de a Polícia Federal ter entrado com força policial de 150 homens no acampamento. "Usamos o uso moderado da força. Teve índio que tentou atacar policial militar e foi rechaçado com bala de borracha".

    Ele diz que com 30 anos de carreira já poderia estar aposentado, mas "de forma voluntária, segue trabalhando" e que denúncias do gênero, quando feitas contra servidores públicos, podem resultar até em perda de cargos. "Eu fui informado pelo delegado [Brun] que, as pessoas quando se pede alguma razão [para a denúncia], vão para o silêncio. Ir para o silêncio é quando se deve alguma coisa. Tudo aquilo que não pode ser falado, não pode ser feito. Se você faz, tem que falar".

    O inquérito ainda não tem uma estimativa de prazo para a conclusão.




    16 de jun. de 2017

    14 de junho de 2017: A Noite da Maldade em Estado Puro

    14 de junho de 2017: A Noite da Maldade em Estado Puro 



    Com bombas e violência, polícia expulsa ocupantes de prédio no centro de Porto Alegre 


    "Um juiz com auxílio-moradia não tem moral para determinar despejo de sem-teto."

    Nota da Redação: O auxílio-moradia dos juízes é de R$ 4.377,73. De que lado você está?

    http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2017/06/9931/violencia-no-centro-de-porto-alegre/


    'Assembleia foi violentamente afrontada com prisão do deputado Jeferson Fernandes' 

    http://www.sul21.com.br/jornal/pretto-assembleia-foi-violentamente-afrontada-com-prisao-do-deputado-jeferson-fernandes/ vía @jornalsul21

    Brigada Militar desocupa Lanceiros Negros e detém um parlamentar

    http://www.jornalja.com.br/brigada-militar-desocupa-lanceiros-negros-e-detem-um-parlamentar/?Nova+Publica%C3%A7%C3%A3o+%28%25TITLE%25%29+foi+feita+em+Jornal+J%C3%81+%7C+Porto+Alegre


    Lanceiros Negros: Brigada faz operação de guerra para 'garantir funcionamento habitual da cidade' 

    http://www.sul21.com.br/jornal/lanceiros-negros-brigada-faz-operacao-de-guerra-para-garantir-funcionamento-habitual-da-cidade/ vía @jornalsul21


    Carta ao Zé Ivo (por Sônia Corrêa) 


    As mães valentes das ocupações 


    Políticos e entidades criticam violência policial e governo Sartori em desocupação da Lanceiros

    Em cada diferença, a igualdade

    Programa - CEPDH

    P rograma Razões da Fé: Centro de Estudos, Pesquisa e Direitos Humanos: lugar onde é aplicada a doutrina social da igreja Programa de 23/12/...