14 de abr. de 2015

Nota do MNDH: Caso Manoel Mattos


À 36ª Secção Judiciária da Justiça Federal – Estado de Pernambuco

Referência: Caso MANOEL MATTOS -

 

O Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), representando centenas de entidades filiadas de todas as regiões do Brasil, vem através desta nota reafirmar seu respeito e confiança para com o Sistema de Justiça Federal no processamento e julgamento do primeiro caso de violação de direitos humanos federalizado no Brasil, previsto para esta terça-feira, dia 14/4/2015.

O julgamento do caso do defensor de direitos humanos Manoel Mattos, vítima de assassinato em janeiro de 2009 em razão de seu trabalho contra grupos de extermínios e contra práticas de corrupção envolvendo policiais, autoridades e criminosos comuns no Estado de Pernambuco, poderá, a depender do julgamento, abrir um novo capítulo de enfrentamento à impunidade e ao crime organizado no Brasil: paradigma que será referência para todos os países que integram o Sistema Interamericano de Direitos Humanos, uma vez que esse caso é acompanhado pela Comissão e pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.


Entidades de todo Brasil acompanham atentamente esse dia com grande esperança que o corpo de jurados e todos os operadores do direito deixem claro para os mandantes e os executores do assassinato de Manoel Mattos que a Justiça pode mais que as intimidações, os subornos e a falsa certeza de impunidade.

Em um momento em que o povo brasileiro clama pelo fim da corrupção e da impunidade, o julgamento do caso Manoel Mattos vem como uma luz orientadora na construção de um país com justiça para todas e todos.


Assim, reafirmamos nossa credibilidade na Justiça Federal Brasileira.


São Paulo, 14 de abril de 2015.

Movimento Nacional de Direitos Humanos


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Günter Grass e Eduardo Galeano vão para os eternos campos de caça

Günter Grass e Eduardo Galeano vão para os eternos campos de caça

Publicado em 14/04/2015

Flávio Aguiar_GunterGaleanoPor Flávio Aguiar.

Novamente o noticiário me leva, nestas crônicas, para longe do reino da cozinha. Saio dele para ir, desta vez, à biblioteca.

Percorro os volumes silenciosos. Eles hoje, 14 de abril de 2015, me parecem mais silenciosos do que de costume.

Livros choram?

Sim, choram. Também há momentos em que riem, outros em que ficam sisudos, pensativos, outros tem coceiras se acariciados, ainda outros fazem sexo conosco quando os apalpamos e cheiramos.

Há livros carrancudos, cheios de ódio: Minha luta, Mein Kampf, por exemplo. Outros há cheios de paixões tumultuadas, como Narciso e Golmund, de Herman Hesse.

Mas nesta minha biblioteca há alguns livros mais silenciosos do que outros.

Recolho um deles. É O tambor, de Günter Grass (em alemão Die Blechtrommel,"O tambor de lata"). Dele me sai esta preciosidade:

"Até mesmo os maus livros são livros e, portanto, são sagrados".

Pego outro, igualmente cabisbaixo. É uma edição em espanhol, Diario de um Caracol, do mesmo Günter Grass, e leio, traduzindo em voz baixa para não perturbar demasiado o silêncio desta biblioteca:

"A melancolia deixou de ser um fenômeno individual, uma exceção. Transformou-se num privilégio de classe do trabalhador assalariado, um estado mental de massas, que se instala onde quer que a vida seja governada por índices de produtividade".

E:

"Se o trabalho e o lazer logo se tornarem subordinados ao princípio utópico do absoluto negócio, então a utopia e a melancolia coincidirão: [veremos] a aurora de uma era sem conflitos, sempre tomada por ocupações – e sem consciência".

Günter Grass era um homem de grande coragem. Demorou, mas confessou de motu próprio ter pertencido, na juventude, à Waffen-SS, o braço militar da odiosa organização nazista. Repudiou-a, depois. Recentemente, em plena Alemanha, publicou um poema criticando o governo de Israel (que muita gente aqui considera "intocável", "incriticável", como se isto existisse) pelo tratamento dispensado aos palestinos. Foi acerbamente atacado, acusaram-no de antissemitismo, coisa que ele rejeitou com veemência – e com razão.

Depois de procurar consolar estes livros acariciando-os, observo logo adiante um outro livro cabisbaixo. Perto dele, não muito longe, um outro livro, este muito grande e pesado, chora perdidamente: é a enciclopédia Latinoamericana. Não sei se ela chora por ter perdido um pai ou um filho, quem sabe um irmão. Mas tomo nas mãos o primeiro: é O livro dos abraços, de Eduardo Galeano. Na sua capa, sempre me saudava, cada vez que eu o fazia sair de seu nicho, um menino alegre tocando um tambor (seria o do Günter Grass?). Mas agora o menino me olha tristonho. Seu tambor está silente. Mas como se fora um convite, ele começa a tocar seu instrumento, naquele toque plangente, ritmado, se juntando ao silêncio das gentes, com que o surdo da escola de samba leva à última morada o passista que morreu.

Mas ouço naquele toque que irrompe na biblioteca transformada em câmara de velas ardentes um convite para abri-lo. E o faço. E leio, logo no primeiro texto:

"O mundo

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus.

Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

– O mundo é isso – revelou –, um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo".

Tive a graça de conhecer Galeano pessoalmente. Entrevistei-o várias vezes na TV Carta Maior, durante os Fóruns Sociais Mundiais. Ele tinha um jeito peculiar de falar. No começo amarrava a cara, como se estivesse de mau humor. Quem sabe estava? Galeano detestava estrelismos, e uma câmera de TV pela frente sempre lembra, de algum modo, esta condição estelar e inoportuna. Mas logo em seguida ele cativava quem o ouvisse não só pelo brilho de seu pensamento, como pelo otimismo cauteloso, nunca panfletário, que emanava de suas palavras. Sua voz de tom medianamente grave infundia serenidade de mistura com o caráter apaixonado, ardente mesmo, de sua relação com a beleza literária e com a busca da justiça social na nossa América Latina de tantas injustiças.

Me veio à lembrança também a imagem de seu irmão de sangue (assim eles se tratavam) e de espírito, o jornalista Marcos Faerman, o Marcão da Faculdade de Direito da UFRGS e das peladas de futebol do Veludo, em Porto Alegre. O Marcão foi a Buenos Aires, onde então Galeano se exilava, entrevista-lo para a o jornal Ex-, um dos alternativos de São Paulo. Lá encantou-se com a revista que Galeano dirigia, Crisis. E o Marcão editou algo parecido no Brasil, a Versus, uma das revistas mais criativas do nosso jornalismo.

Bem que eu notara que um pouco mais adiante da Latinoamericana meus exemplares sobreviventes de Versus Crisis estavam abraçados, compungidos.

Num movimento repentino, sem pensar, abri as janelas da biblioteca, para que a luz violasse aquela penumbra. A manhã berlinense me recebeu com seu gélido hálito habitual. Mas o sol entrou, e logo transformou aqueles silentes livros num enxame de vozes que, como pássaros recém-despertos, homenageassem a vida dos que partiram – há tempos, como o Marcão, ou há pouco, como Grass e Galeano.

A entrada do sol na penumbra que se dissipava me confirmou a assertiva: é impossível se aproximar destas pessoas, destes livros, destas revistas, sem pegar fogo, mesmo que serenamente.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.


http://blogdaboitempo.com.br/2015/04/14/gunter-grass-e-eduardo-galeano-vao-para-os-eternos-campos-de-caca/



A bancada BBB domina o Congresso

Maioridade Penal

A bancada BBB domina o Congresso

A Bancada do Boi, Bíblia e Bala coloca em curso o projeto para reduzir a maioridade penal. É só o começo da aliança
por Rodrigo Martins — publicado 14/04/2015 04:34, última modificação 14/04/2015 04:35
Alfredo Risk/Futura Press

Após algumas sessões marcadas por protestos, bate-bocas e intensa troca de acusações, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou na terça-feira 31 a admissibilidade da proposta de emenda à Constituição que reduz de 18 para 16 anos a maioridade penal no Brasil. Agora, a discussão caminha para uma comissão especial, que terá cerca de três meses para debater iniciativas similares e consolidar um relatório a ser votado no plenário. Entre as sugestões, há toda sorte de "soluções", da responsabilização de adolescentes apenas em caso de crimes contra a vida à espantosa proposta de baixar o limite de idade para 12 anos.

O debate sobre o tema ocorre há mais de duas décadas na Câmara, mas a tramitação desses projetos sempre foi travada por deputados ligados aos direitos humanos. Segundo juristas de diferentes matizes ideológicos, a responsabilização a partir dos 18 anos é cláusula pétrea da Constituição. Mesmo assim, a proposta foi reavivada pela chamada Bancada da Bala, que não teve dificuldade para angariar o apoio de parlamentares evangélicos e ruralistas. PSDB, DEM, PSD, PRB, Solidariedade, PSC e parcelas do PMDB asseguraram a vitória do grupo. Às vésperas da votação, a deputada petista Erika Kokay previa o pior. "Há uma forte aliança dos setores conservadores na Câmara. Há tempos tenho alertado sobre a força dos fundamentalistas da 'Bancada BBB', da Bíblia, do Boi e da Bala", diz. "Agora, eles estão ainda mais unidos e articulados."

O termo "BBB" foi usado por Kokay pela primeira vez em uma reunião da bancada do PT na Câmara no início do ano, e arrancou risadas dos colegas. A expressão não tardou a se difundir entre parlamentares de partidos de esquerda, que também identificam nessa articulação uma ameaça aos direitos humanos e das minorias. "Desde a discussão do Código Florestal, em 2012, os ruralistas buscam essa aproximação com os evangélicos. Logo depois, eles estavam unidos em torno da PEC 215, que retira do Executivo a prerrogativa de demarcar Terras Indígenas, transferindo-a para o Congresso. Mais recentemente agregaram a Bancada da Bala", afirma o deputado Ivan Valente, do PSOL. "Com Eduardo Cunha na presidência da Câmara, essa aliança consolidou-se. Até porque esses grupos ajudaram a elegê-lo."

Nos últimos anos, a esquerda recorreu a manobras de obstrução para barrar iniciativas como a revogação do Estatuto do Desarmamento ou a aprovação do Estatuto da Família, que restringe a definição de núcleo familiar à união entre um homem e uma mulher, forma de impedir a adoção de crianças por casais gays. No caso da PEC 215, contaram ainda com a mobilização dos povos indígenas, que chegaram a ocupar o Plenário da Câmara para resistir às mudanças nas demarcações. Um Congresso de perfil mais conservador torna, porém, mais difícil evitar essa onda.

A ofensiva conservadora começou pela área de segurança. Na quinta-feira 26, a Câmara aprovou um projeto que eleva a pena para crimes cometidos contra policiais, agentes carcerários, militares e bombeiros em exercício da função. No dia anterior, o plenário havia aprovado outra proposta que dificulta a concessão de liberdade condicional aos condenados por crimes hediondos.

A investida mobilizou diferentes setores da sociedade civil. "Sabemos que logo mais essa onda pode afogar os direitos indígenas, até porque a PEC 215 foi desarquivada", avalia Cleber Buzatto, secretário-executivo do Conselho Missionário Indigenista. "Em abril, teremos novo acampamento em Brasília, com mais de mil lideranças indígenas." Na avaliação de Kokay, a aliança BBB vai muito além da estratégia de apoiar a pauta alheia para fortalecer a sua própria. "Na verdade, todos eles compartilham da mesma ideologia, unem-se na defesa da sociedade patrimonialista e patriarcal."

Somados, os BBB dispõem de 40% dos votos da Câmara, mas são capazes de formar maioria com tranquilidade, diz André Luís dos Santos, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). "Eles não têm dificuldade para angariar apoio de outros blocos, até por ocuparem postos-chave na estrutura de poder da Casa." Nessa frente, a ala mais numerosa é a ruralista, formada por 109 deputados e 17 senadores, segundo a "Radiografia do Novo Congresso", atualizada a cada nova legislatura pelo Diap. Após Kátia Abreu assumir o Ministério da Agricultura, o oposicionista Ronaldo Caiado, do DEM, emergiu como uma das principais referências da chamada Bancada do Boi no Senado. Campeão de votos no Rio Grande do Sul, Luis Carlos Heinze, do PP, mantém a liderança do grupo na Câmara.

A Bancada da Bíblia, por sua vez, aumentou de 73 para 75 o número de deputados eleitos, além de preservar três senadores, registra o Diap. O pastor Marco Feliciano, do PSC, quase dobrou a quantidade de votos obtidos de 2010 para 2014, e segue como uma referência importante. Mas é o peemedebista Eduardo Cunha, fiel da Igreja Sara Nossa Terra, quem ocupa o palco, por definir o que entra ou não na pauta da Câmara.

Cunha reveza-se entre pautas folclóricas, entre elas a criação do "Dia do Orgulho Hétero", e iniciativas mais retrógradas, a começar pela intenção de proibir o aborto até em casos previstos em lei, como estupro e gravidez de risco. "É difícil ter uma agenda do século XXI com o presidente da Câmara patrocinando esse tipo de projeto", lamenta a deputada Jandira Feghali, líder do PCdoB.

Completam o time dos BBB ao menos 22 deputados defensores da redução da maioridade, do fim das penas alternativas e da permissão do porte de arma para todo cidadão, revela o Diap. Um expoente da Bancada da Bala é Jair Bolsonaro (PP-RJ), capitão da reserva do Exército, e Alberto Fraga (DEM-DF), coronel reformado da Polícia Militar e líder da Frente Parlamentar de Segurança Pública, representada pelo desenho de duas pistolas sobrespostas à silhueta do Congresso Nacional. Na terça-feira 31, Bolsonaro celebrou pelas redes sociais a vitória na CCJ da Câmara e o aniversário do golpe de 1964. Debochado, posou para fotos após estender uma faixa sobre o gramado do Parlamento: "Parabéns, militares. Graças a vocês o Brasil não é Cuba".

Apoiada por nove em cada dez brasileiros, segundo diferentes pesquisas, a redução da maioridade penal enfrenta a oposição de importantes entidades, entre elas a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Associação Juízes pela Democracia. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime também é contra. "É importante levar em conta que homicídios cometidos por adolescentes representam menos de 1% do total, enquanto mais de 36% das vítimas de homicídios no Brasil são adolescentes", anota a agência da ONU.

Na prática, o encarceramento de menores em cadeias comuns tende a agravar o problema de superlotação no sistema prisional, hoje com um déficit de 200 mil vagas. Segundo o último levantamento feito pelo Conselho Nacional de Justiça, o País possui mais de 715 mil presos, dos quais apenas 148 mil estão em regime domiciliar. É a quarta maior população carcerária do mundo, atrás apenas de EUA, China e Rússia. Tampouco existem evidências de que o rebaixamento da idade penal seja capaz de reduzir os índices de criminalidade, observa o historiador Douglas Belchior, militante do Movimento Negro e integrante do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. "Ao contrário, o ingresso antecipado no falido sistema prisional aumenta as chances de reincidência, uma vez que as taxas nas penitenciárias são de 70%, enquanto no sistema socioeducativo estão abaixo de 20%."

*Reportagem publicada originalmente na edição 844 de CartaCapital, com o título "BBB no Congresso"


http://www.cartacapital.com.br/revista/844/bbb-no-congresso-1092.html




13 de abr. de 2015

"Nacerán y volverán a morir y otra vez nacerán. Y nunca dejarán de nacer, porque la muerte es mentira."




"Nacerán y volverán a morir y otra vez nacerán. Y nunca dejarán de nacer, porque la muerte es mentira."

Adiós y Gracias, Eduardo Galeano. 


Programa Cantos do Sul da Terra sobre EDUARDO GALEANO, neste dia 13 de abril de 2015, na FM Cultura - 107.7 - www.fmcultura.com.br

(o programa inicia aos 7:00 minutos)


9 de abr. de 2015

10 livros infantis que abordam os direitos humanos

10 livros infantis que abordam os direitos humanos

Carolina Pezzoni, do Promenino, com Cidade Escola Aprendiz

O direito à vida e à convivência familiar, o acesso à educação, ao lazer, ao brincar. O direito de estar a salvo de qualquer tipo de discriminação e violência. Todos esses direitos, entre tantos outros, são considerados essenciais e resguardados às crianças por lei. Mas será que elas têm consciência do que cada um deles representa?

Apoiando-se na leitura como porta de acesso a essas informações, o Promenino pesquisou junto a especialistas* na área da educação e da literatura e chegou a uma seleção de 10 livros infantis que abordam esses temas de forma sensível e sem artificialismos.

Uma seleção de livros transformadores, de diferentes nacionalidades, os quais, segundo definição do autor e crítico inglês Aidan Chambers, "enriquecem a imagem do mundo e sua existência; ajudam a conhecer a si mesmo e a compreender os outros e a sociedade em que se vive, assim como a sociedade em que vivem as outras pessoas".

Boa leitura!

1. Acompanhando meu pincel
Dulari Devi, com texto de Gita Wolf (WMF Martins Fontes, 2014)

Ao percorrer as delicadas e vibrantes ilustrações nas páginas deste livro, o leitor fica conhecendo a história de como a sua autora, a indiana Dulari Devi, se tornou uma artista. Nascida em uma família pobre, de tradição pescadora, ela precisou trabalhar na infância, ajudando a mãe na plantação de arroz, cuidando dos irmãos mais novos em casa, fazendo trabalhos domésticos para os vizinhos. O que mais gostava de fazer, no entanto, era parar no caminho para ver as outras crianças brincarem.

"Às vezes eu tinha vontade de fazer algum trabalho diferente, pois desde pequena era sempre a mesma coisa, todos os dias", confidenciou em relato oral à editora Gita Wolf, que o reproduziu em texto no livro. Sem nunca ter ido à escola, Dulari não aprendeu a ler ou escrever, mas a vontade de "produzir alguma coisa bonita" a levou a descobrir sua vocação na pintura, especialmente na técnica Mithila, estilo que a tornou uma celebrada artista popular, e que agora usa para retratar lindamente as cenas mais marcantes da sua infância.

2. É tudo família!
Alexandra Maxeiner e Anke Kuhl (L&PM Editores, 2013)

Como um almoço de domingo, em que sempre cabe mais um, este livro abrange a diversidade das formações familiares contemporâneas. Em ritmo de HQ, ilustra algumas possibilidades: há famílias com filhos únicos ou numerosos, famílias com pais separados que podem se dar bem ou não, famílias com padrastos ou madrastas (geralmente diferentes das personagens dos filmes), famílias com pais homossexuais ou viúvos, famílias cujas crianças são criadas pelos avós, pais adotivos ou vivem em um orfanato.

Além dos diferentes tipos de laços familiares, apresentados de forma bem-humorada e sem artificialismos, o livro dá conta também de aspectos afetivos que permeiam essas relações: sentimentos como raiva, tristeza e amor, a rotina frenética de quem tem duas casas, a dor provocada pela perda de um parente querido e até mesmo circunstâncias mais obscuras, como a violência contra crianças: "Existem pais que tratam seus filhos muito mal. Nunca os abraçam ou beijam. Só gritam com eles. Outros até batem nos filhos, embora isto seja proibido!".

3. Um outro país para Azzi
Sarah Garland (Pulo do Gato, 2012)

A partir do olhar da menina Azzi, este livro retrata uma família do Oriente Médio, que se vê obrigada a fugir quando a guerra começa a afetar sua rotina. "Às vezes, o barulho das metralhadoras nos helicópteros era tão alto que as galinhas ficavam assustadas e paravam de botar ovos", conta a protagonista, nessa narrativa ricamente ilustrada, revelando sua perspectiva da aproximação do conflito.

Apesar das dificuldades que se impõem na travessia da sua família para um novo país – desde a fome, o frio e a sede que sentiu, passando pela preocupação com o bem-estar dos pais, até a saudade da avó, que permanece no país antigo para cuidar da casa – Azzi encara a situação como uma aventura e acaba descobrindo sentimentos que não conhecia, como a solidariedade e a esperança.

Inspirada por algumas famílias de refugiados da Birmânia e do Butão que encontrou na Nova Zelândia, a autora estudou as memórias daqueles que precisaram fugir ou foram exilados de seus países e pesquisou detalhes com professores e especialistas em leis de imigração e direitos humanos para contar uma história universal de mudança e adaptação.

4. A diaba e sua filha
Marie NDiaye, com ilustrações de Nadja Fejtö (CosacNaify, 2011)

Todos os dias, ao anoitecer, uma diaba de pele escura, olhos brilhantes e roupas muito limpas sai pelas ruas da cidade, batendo de porta em porta, em busca de sua filha perdida. Prestes a ajudá-la, as pessoas reparam que ela tem cascos negros e delicados no lugar dos pés e imediatamente a expulsam de suas casas, apagando as luzes até que se afaste.

Ao narrar esse conto de mistério, antes uma alegoria sobre nossos próprios medos e preconceitos, a autora coloca bem e mal, humanidade e demônios, nós e os outros na mesma página, nos desafiando a buscar qualquer traço de humanidade dentro de nós mesmos.

Como escreveu Mia Couto no prefácio do livro, a franco-senegalesa NDiaye fala da necessidade de classificarmos os outros e os arrumarmos em bons e maus, em anjos e monstros. "Nestas páginas se inscreve, enfim, a facilidade em culparmos e diabolizarmos os que são diferentes e o modo como os sinais de aparência (no caso, os pés de cabra) se erguem como marca de fronteira entre os 'nossos' e os 'do lado de lá'."

5. Martin e Rosa
Raphaële Frier e Zaü (Pequena Zahar, 2014)

Os ônibus só passavam em frente às casas das pessoas brancas, e negros só podiam se sentar no fundo, isso se nenhum branco quisesse o seu lugar. Restaurantes, banheiros públicos, elevadores e guichês tinham divisões de raças identificadas por tabuletas. Casais mistos também eram proibidos em qualquer lugar.

Muitos já ouviram falar sobre discriminação racial, mas poucos têm memória do quanto ela se impôs ao cotidiano dos negros no sul dos Estados Unidos, no período após a Guerra de Secessão. Para suprir essa lacuna, este livro informativo resgata alguns eventos históricos que marcaram os avanços na luta pelos direitos civis e pela igualdade entre os povos, destacando a trajetória daqueles que foram seus maiores representantes: Rosa Parks e Martin Luther King.

6. Mandela: o africano de todas as cores
Alain Serres e Zaü (Pequena Zahar, 2013)

Quando criança, ele gostava de pastorear carneiros, cortar galhos para arremessar bastão. Brincava com os cabelos brancos do pai e bebia leite recém-tirado das vacas. Um pouco mais velho, participava até tarde das conversas serenas dos adultos sobre os rumos da aldeia e queria estudar para não ter de trabalhar nas minas de ouro como os outros homens da aldeia.

Organizado em ordem cronológica, este livro apresenta a biografia de Rolihlahla, mais conhecido como Nelson Mandela, em uma linguagem poética e acessível para crianças. Em tom intimista, revela o seu percurso na África do Sul, em nome da democracia e igualdade de direitos, destacando o período de quase 30 anos que passou na prisão, até se tornar um dos maiores símbolos de resistência, coragem e paz para a humanidade.

7. Eloísa e os bichos (disponível em ISSUU
Jairo Buitrago e ilustrações de Rafael Yockteng (Pulo do Gato, 2013)

"Eu não sou daqui. Chegamos numa tarde, quando eu era bem pequena." Assim começa o relato da protagonista, uma menina que chega a uma nova cidade com seu pai, em busca de uma vida melhor, talvez até fugindo de um passado doloroso. Nesse cenário, tudo o que ela encontra é um mundo estranho, onde as coisas obedecem a regras diferentes.

Ao aliar um texto conciso a ilustrações simbólicas e ricas em detalhes, este livro pousa um olhar terno e renovador sobre questões sociais, como o deslocamento, o respeito à diversidade e a recusa à intolerância. Segundo descrição na revista espanhola "Babar", este é um daqueles livros aos quais se retorna mais de uma vez, procurando descobrir o segredo da sua grande carga emotiva e humana. "Como é possível dizer tanto em tão poucas páginas e frases tão sucintas?"

8. O mundo no Black Power de Tayó
Kiusam de Oliveira e ilustração de Taisa Borges (Peirópolis, 2013)

A protagonista deste livro é uma menina de 6 anos que, além de brincar e adorar bichos, tem orgulho da sua pele e dos seus olhos negros. Apesar do preconceito das outras crianças, faz questão de enfeitar seu cabelo black power das formas mais criativas. Seu nome, Tayó, originário do idioma africano iorubá, significa "da alegria" e espelha a forma como ela se relaciona com as pessoas a sua volta e com suas raízes.

Vencedor do Prêmio ProAC de Cultura Negra em 2012, este livro traz uma mensagem de valorização das raízes culturais brasileiras. "Hoje, eu olho para Tayó e posso ver minhas sobrinhas, primas, alunas – posso ver a mim mesma – e sentir orgulho. Isso, em termos de identidade, é fundamental, uma vez que as crianças negras não têm modelos positivos nas revistas e programas de televisão como espelho. É um caminho que ainda deve ser construído pelas mídias brasileiras", afirma a autora.

9. A história de Júlia e sua sombra de menino
Christian Bruel e Anne Galland, com ilustrações de Anne Bozellec (Scipione, 2010)

"Você sempre tem que fazer tudo tão diferente?", interroga a mãe. Ao que a filha responde: "Eu não sou como todo mundo, mamãe. Eu sou a Júlia!" O título do livro, somado a este diálogo em família, já dá uma ideia dos rumos desta narrativa. Pressionada pelo olhar vigilante dos pais, que não 'entendem' o seu comportamento, um dia Júlia acorda e se percebe com uma sombra de menino.

Por aí segue a história, que além do tema da aceitação e da busca pela identidade, aborda as diferentes concepções da infância, as tentativas dos pais em enquadrar os filhos em suas próprias expectativas e a cumplicidade entre as crianças que vivem situações semelhantes. Um clássico da literatura infantil francesa, publicado originalmente em 1976 e traduzido para vários idiomas.

10. O nascimento de Celestine 
Gabrielle Vincent (Editora 34, 2014)

Esta é uma história sobre o afeto e a amizade, que começa no dia em que o solitário urso Ernest encontra a ratinha Celestine abandonada em uma lata de lixo. Descortinam-se, a partir daí, os preconceitos que enfrenta para ficar com ela e os cuidados que dedica 'ao bebê' nos momentos mais difíceis.

Um livro-chave da artista belga Gabrielle Vincent (1928-2000) que, com poucas palavras e finos traços de sonho, em tons de sépia, mostra porque esses personagens conquistaram leitores no mundo inteiro. O editor Arnaud de la Croix escreve no posfácio: "[Ernest e Celestine] não são datados, uma vez que tratam do essencial: os sentimentos compartilhados".

*Agradecemos às especialistas pelas valiosas sugestões:
Cristiane Tavares - jornalista e mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, coordenadora de um projeto de formação de professores na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo.
Sandra Medrano - pedagoga e mestre em didática da Língua Portuguesa, coordenadora de projetos de formação de professores na Comunidade Educativa CEDAC e no Laboratório de Educação.
Thaís Albieri - editora, bacharel em Letras pela Unicamp-SP, onde fez mestrado e doutorado em Literatura Brasileira.



http://portal.aprendiz.uol.com.br/2014/10/29/10-livros-infantis-que-abordam-os-direitos-humanos/




8 de abr. de 2015

próximos encontros do Projeto Democratizando, em Flores da Cunha: 15 e 22 de abril

9ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos do Hemisfério Sul,

através do Projeto Democratizando, 

na Câmara de Vereadores de Flores da Cunha:

dia 15, 19h :: CABRA MARCADO PRA MORRER
dia 22, 19h :: QUE BOM TE VER VIVA

A ação tem por objetivo suscitar o debate sobre os direitos humanos em âmbito nacional. O trabalho, que será coordenado pela psicóloga Rochele Sachet Antoniazzi (CEPDH), apresentará algumas amostras cinematográficas com o foco na sensibilização dos direitos humanos.

O projeto é uma ação da Comissão de Educação Saúde, Agricultura, Serviços Públicos e Direitos Humanos da Câmara de Vereadores e do Centro de Estudos, Pesquisa e Direitos Humanos (CEPDH), de Caxias do Sul.





Realizado segundo encontro do Projeto Democratizando

Na noite desta terça-feira, dia 7 de abril, aconteceu na Câmara de Vereadores de Flores da Cunha o segundo encontro para apresentação dos trabalhos da 9ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos do Hemisfério Sul através do Projeto Democratizando. A ação tem por objetivo suscitar o debate sobre os direitos humanos em âmbito nacional.

O trabalho está sendo coordenado pela psicóloga Rochele Sachet Antoniazzi, com a abordagem de algumas amostras cinematográficas que têm como foco a sensibilização dos direitos humanos. Neste encontro foram trabalhados com os filmes "Pela Janela" e "Rio Cigano". 

O documentário "Pelas Janelas" de autoria de Carol Perdigão, Guilherme Farkas, Sofia Maldonado e Will Domingos retrata, ao longo de 3 meses, uma equipe formada por quatro estudantes universitários de Cinema e Audiovisual que acompanham parte dos processos e experiências dos projetos de Cinema, Educação e Direitos Humanos - Inventar com a Diferença, realizados em escolas espalhadas por todo o território nacional. 

O filme "Rio Cigano" de autoria de Julia Zakia retrata a história de uma cigana que atravessa mundos para salvar sua grande amiga de infância de uma condessa sanguinária. A mostra propicia uma leitura atual da maneira como os Direitos Humanos são compreendidos e retratados em países do Hemisfério Sul.

O projeto é uma ação da Comissão de Educação Saúde, Agricultura, Serviços Públicos e Direitos Humanos da Câmara de Vereadores em parceria com o Centro de Pesquisas, Estudos e Direitos Humanos (CEPDH) de Caxias do Sul. Os próximos encontros acontecem na sala de Sessões Olindo Carlos Toigo, na Câmara de Vereadores nos dias 15 e 22 de abril de 2015, a partir das 19h.








Em cada diferença, a igualdade

Programa - CEPDH

P rograma Razões da Fé: Centro de Estudos, Pesquisa e Direitos Humanos: lugar onde é aplicada a doutrina social da igreja Programa de 23/12/...